sábado, 3 de maio de 2014

meu coração pertence ao mundo
a todas as terras e todas as pessoas
todas as árvores e rios e montanhas
e estrelas e nuvens e homens e mulheres
meu coração pertence ao todo
e aos seus menores detalhes
a todas as cores e sons
de todas as suas substâncias
 e suas transformações
meus pensamentos correm com
os fótons e os elétrons dançantes dos metais
meu coração pertence a cada estrada em que pisei
cada pedra que encontrei
quando a tive na mão e a admirei alquimicamente
meu coração pertence à alquimia
que é a mesma fonte de onde irradiam, ainda puras, sem distinção
a ciência e a poesia
meu coração pertence a ambas, com a mesma vontade
vontade e desespero de saber TUDO
da mesma forma pertence com saudade e alívio
a cada leito onde me deitei
e não mais me deitarei
levo de vós os cheiros dos travesseiros
de mim deixo a cada um o que consigo
meu coração pertence aos meus pés e aos meu olhos
seus batimentos são minhas mãos estendidas
dividindo sangue e luz igualitariamente com tudo o que existe
meu coração pertence a tudo que existe
e às vezes, quando bate com força
se consome em agonia, deleite e desespero
de saber integralmente, o tempo todo
um saber insustentável
de como é imenso, o conjunto de tudo que existe
meu coração pertence ao tudo
e sei que não viverei o bastante
para que tudo caiba em seu íntimo
ou mesmo no ritmo de seus batimentos
que são minhas mãos, duas ou mais antenas
gigantescas, minúsculas, tentando em desespero e graça captar do mundo
tudo o que me couber entre os dedos
ó mundo, universo, minha amada
para sempre um tanto virgem para mim
eu que jamais ter-te-ei inteira em meu corpo
porque és grande demais para meus olhos e minhas mãos
e tens muitas mais belezas do que jamais conhecerei
e muitas mais memórias do que jamais saberei
queria que te revelasses para mim
como me revelo nesses versos, que
por serem para ti, não lhes sei pôr fim
de tua alquímica beleza
a única fração que me pertence inteira
é essa inefável poesia
que se revolve no estômago e no peito,
que inunda meus olhos e treme minhas mãos,
e que meu coração acaba de entender.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Um dia blástico, pensando sobre ter padecido de saudades. A saudade é o vazio da ausência física, alimentado pelo presença quintessencial. O espírito não satisfaz a saudade; o corpo interiorizado feito parte anexa de si, é esse o desejo do saudoso. A entrega é o ato mais impossível da psiquê humana: jamais o receptáculo desejará conter (porque qualquer coisa pode conter tudo) tudo o que se desejará verter. O absoluto é intrapessoal. O suicídio é a saída mais simples quando se deseja um abraço inteiro. Só a morte nos aceita por inteiros. Bruno Ferrari, poeta boêmio do início do século XXI. Suicidou-se atirando-se da janela de seu quarto, de saudades, completamente embriagado. Escreveu esta porra toda e dormiu.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

à treva no espelho narciso lançou-se

Mudo de casa. vou sem nada. Lavo minhas roupas, não guardo nenhuma. Desfaço-me dos livros, eu não os abrirei. Desfaço-me dos móveis que estiveram ou estão desfaço-me de todos os mimos e de fazer a comida para mais de um desfaço-me das horas de espera e de todos os relógios auto-entorpecentes desfaço-me do entendimento do impenetrável desfaço-me do peso do homem projetado, meu peito se enche de nada e de si e desfaço-me do pó, do escuro do sujo, da pressão nas minhas artérias, deixo ficar um homem que respira e volto às rimas sonoras e metrificadas, num sentido de métrica que ressona por dentro, sem quadrificar-se pelo lado de fora, desfaço-me das lentes de aumento, e deixo um homem do seu proprio tamanho falam tão baixo as vozes que ecoam de dentro, aquietar-me para ouvir-me, o calor, capaz de espalhar-se por este corpo quente, é uma onda de vibratos tão sutis que a mente gelada é capaz de calar deixo os gumes desta faca acertarem o metal e a madeira do tronco que hiberna, perderem o fio sem cortar a carne enlamearem-se do sangue que não vou derrubar, a casa nova é o peito novo é o novo homem é a armadura do peito nu contra o frio, o calor de dentro só para um bastar-se um, vibrar para si, o espelho de narciso é a porta de perseu são os olhos de helena no espelho, é orfeu na água o trono vazio guardando o manto para nunca mais, minhas mãos são quentes, meus pés e ombros gelados que este calor não alcaçava esperam por um pulso que venha do centro, pés dormentes sobre o chão de vento ombros dormentes sob o chão de chumbo à espera de que acorde quem escolhe o peso, meu calor se propaga com a velocidade das eras, à beira de uma vida para dentro superar o silêncio das bordas ler as cartas como quem lê em sânscrito aquietar-me para ouvir-me descer ao fundo com a luz do sol é o espelho de narciso são os olhos de helena no espelho, descer as cartas como quem colhe lírios, lírios pardos de cores sob a xantofila lírios com as cores de outra vida por séculos colhidos com desdém por hora descorando-se em ouro, o ouro de narciso os olhos de helena na fonte de midas, sileno te recompensará com a vinha quando esta erva nascer e se enrolar por teus braços e cobrir as tuas pernas até que tenhas raízes quando nascer a fruta beber de si mesmo teu corpo será o cálice, o teu receptáculo, beber a si mesmo levar o calor aos pés e aos ombros dormentes que esperam, com a rima dos lírios das cores de dentro. perseu é distante é outra vida narciso matar-se nos olhos de helena é o peito de orfeu que cicatriza é eurídice que vai-se deixando o vazio de onde nascem os mundos. deixando o calor espalhar-se nos corpos, descendo ao submundo e fundindo-se às trevas orfeu sem eurídice é o sol à noite é a treva que precede o dia o termo e a morte de tudo enquanto dorme narciso matar-se helena entrar-se sileno brindar o dia em que os sonhos morreram em paz já sinto as pálpebras se abrirem à frente dos olhos argênteos de uma outra vida além deste sol eurídice vai-se dissolve-se a lira no som que emana das vozes de dentro é perseu, é perseu que desperta é perseu que se levanta é o quente que chega aos fins do mundo ao fim dos corpos aos fins dos anos em que preso vivera nesta casa neste homem nesta metade de um homem, à beira de uma vida para dentro o som do silêncio é branco, os lírios colhidos com as mãos quentes têm as cores dos olhos de helena e narciso têm o cheiro de eurídice quando era viva, sem orfeu eurídice é viva sem eurídice orfeu se levanta não se chama mais orfeu descobrirá seu nome quando todas as idéias se fecharem em ciclos quando chegar o calor aos membros dormentes quando viver para ver-se e soltar-se nos planos de nascer onde houver chão, de pisar onde houver, e o orvalho místico em seu rosto será a sua identidade irrefutável, o círculo dos homens refeito de dentro, um brinde ao novo diôniso, um brinde aos mortos, duas moedas nos meus olhos, que ao hades me lanço com a luz do sol. eu era orfeu e helena e narciso, eu sou o espelho eu sou o começo eu sou o transitório eu sou o vazio de onde nascem os mundos. o santo demônio eu sou o ermo e o próximo eu sou o termo eu sou o fruto e levanto-me à noite porque eu sou beleza da treva que precede o dia.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Vá em paz,
Eurídice.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O nervo e a alma

porque não existe limite
para as linhas que eu penso
elas pesam sobre os dedos e eles escrevem
o que querem
ha um nivel de descompasso e incontrole
e entre a alma e o nervo
que deus no homem não despertará
o melhor e o pior de cada vida
a alma no nervo
é o dedo no plástico
é a língua no nada
tentar a fusão
ultrapassar os elétrons
as palavras são de qual das duas
entidades autonomásias

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

maus momentos, bons poemas.
Escrevi isso há muitos anos...


Black candles for the lovers


Lay down on my deathbed, share with me this divinal serenity
the taste of shades gettin´ closer within my last minutes
the sound out there makes no sense, is this a pray for me?
can you please touch me, I cannot see, are you really there?
my eyes are hazing, it´s all darkenin´ here
can you please take my hand, I´m so scar´d and cold
I´m slowly freezing as dense become my thoughts
is there a candle afront the altar? I feel it cold, but I could swear some one hath light´d it
did you see the woman fleeting fro the door?
oh, this´ a death chamber, they´ve already lock´d the doors
so she left this for me? how beautiful is this blade
she´s written my name on it, and this is for my chest
just let me taste some more of this strange letargy
can you hear the deaf simphony?
oh, it´s so so silent here
are they really prayin´ for me?
cannot control my laughs, it´s so funny this holy disgrace
then she´s gave me my last temptation
oh, she´s just giving back
who´s the murderer, and who is the sinner?
guess I´ve got too close to come back and think, this´ such a thin veil between me and dark nothing
that I achieve and set me free (set her free)
I realize and let me be (let her be)
then it nails my heart with all my love and will and guilt,
as I light a black candle to dress my soul in red
to kill myself for a dying lover
and oh, I´m surprised, there´s no blood else fro me
I´ve been so drown´d on it, and I thought ´twould never have an ende
till I´ve died completely and for all
oh, this´s the time when I die
I´ve almost forgotten
to tell everyone
the insipid taste
and the stupid beauty
of diving into the black nothing
ofer the cold, gray and limpid stone of my grave
I drop the rests of my body in a maimed peace, now barely confess´d
(is peace having but nothing to feel?)
and almost all that´s left fro my heart and love
is the limb in the walls of this deathroom
my velvet dying, black candles for the lovers
is this the sun out there? why is it still rising for me
even when I´m leaving the stain of this life
the ever flame of my love has the most high majesty
of lonely running to death and still keeping in my dress´d down face
a caressing smile for you my thug
don´t wanna take you with me
don´t share with me the poison and tragedy of this blacken eternity
but I wanna kiss you one more time before...
(before I die
I remember
the last flame I´ve felt
was the maudlying taste of your sunlike lips)

so I´ve died once more this night
one else of the deaths I´ve never let myself to taste
the dragger on the floor, oh, it´s broken
and seas of a phantom blood streaming fro my heart
mine evanescent rose - I´m crying
all that´s left fro my curse and pain
is the limb in my deathbed, beyond the sunset
(can you show me the sun for now?)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A história da humanidade é uma história de tantas tristezas
todos os homens e mulheres são tristes
mais tristes se assim o sabem
e se de si pouco ou nada conhecem ou desconfiam
menos tristes (ou mais dormentes) serão
adormecida humanidade
no espaço vazio que transporta em sua pequenez
a humanidade transposta em outros homens
(que não existem) e de olhos abertos vivem sem pressa para além das tristezas
isso, essa se chama esperança
que só perdura porque é cega e surda
e se inventa e se cria e se alimenta
no coração dos homens que não sabem que são tristes
cegos surdos e tolos
de fecharem olhos ouvidos e a mente
a todo sofrimento do mundo
este poema é uma dor
profunda e de impróprias imagens autodescritivas
que desperta nos olhos do homem
no preciso instante em que seu olhar reconhece
que tudo que há dentro de si
é igual ao que há fora de si
e dentro de todos os outros homens
a história da humanidade é uma história de tantas tristezas
quanto se pode destilar
do lago triste onde choram os homens
bebe aquele que desperta
quantas humanidades há dentro de um só homem?
quantas faces espelhadas tem a sua tristeza?
o homem se vê em todos os homens
sua dor é a dor de todos os seres
a tristeza de um homem é a tristeza de todos
a única lucidez que os unifica, em todas as línguas
na língua dos olhos tristes que todos os homens entendem
(mesmo quando mutilam outros homens)
mas meu carrasco me olhava nos olhos enquanto me cortava
e se comprazia de minha tristeza
desconheceria por completo a sua própria
para não encontrá-la em mim
ou desejou que ela fosse minha
já que não pôde guardá-la em si?
(mas será essa a lógica do desigual)

aquele que conhece sua tristeza
a reconhecerá em todos
o olhar para dentro é igual ao olhar para fora
os homens são os mesmos
em todos se hão de manifestar todas, as tristezas (para isso tempo haverá)
serão nesse dia um único homem
todos os homens?


Este poema é uma dor
que de si mesma me liberta
porque mais a conheço e assim mais me aproximo
do homem em mim que se repete em todos
e agora que por um instante (com mais idéias do que sei palavra) me aproximo
será o quê (existirá?)
que elo
que linguagem
que palavra
que lampejo
que intocável fugidio pensamento
haveria que conjuga e converge
as humanidades todas, e as estrelas?